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Produção científicas produzidas durante o desenvolvimento do projeto

  • Foto do escritor: Lívia Magalhães
    Lívia Magalhães
  • 19 de jun.
  • 4 min de leitura

A documentação inquisitorial guarda um universo de informações que desafia a compreensão tradicional dos arquivos históricos. A partir desse desafio, o projeto dedicado à edição digital desses documentos lançou bases sólidas para o avanço da Paleografia Digital em língua portuguesa. A trajetória da equipe de pesquisa revela um percurso marcado pela inovação tecnológica, pela reflexão teórica e pelo estudo aprofundado de fontes inquisitoriais, especialmente aquelas preservadas no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Este texto apresenta a evolução das pesquisas desenvolvidas, destacando a colaboração científica e o pioneirismo na criação dos primeiros modelos de reconhecimento automático de manuscritos históricos em português na plataforma Transkribus.


Vista frontal de manuscrito inquisitorial antigo aberto em mesa de arquivo

A Paleografia Digital como campo emergente


A Paleografia Digital surge como uma resposta necessária à complexidade dos documentos históricos manuscritos, especialmente aqueles produzidos em contextos inquisitoriais. A equipe do projeto entendeu que a simples digitalização não seria suficiente para garantir o acesso e a análise aprofundada desses textos. Foi preciso desenvolver métodos que combinassem o conhecimento paleográfico tradicional com ferramentas digitais capazes de interpretar a caligrafia antiga.


O artigo "Can Machines Think? Por uma Paleografia Digital para Textos em Língua Portuguesa" (2021) marcou o início dessa jornada. Nele, os pesquisadores discutem as possibilidades e os limites do uso da inteligência artificial para o reconhecimento de manuscritos em português, destacando a necessidade de modelos específicos para a língua e para os contextos históricos nacionais. Essa publicação não apenas apresentou um panorama teórico, mas também lançou as bases para a criação dos primeiros modelos de reconhecimento automático de manuscritos inquisitoriais na plataforma Transkribus.


A plataforma Transkribus e o reconhecimento automático


A plataforma Transkribus tem se consolidado como uma ferramenta essencial para a Paleografia Digital, oferecendo recursos para o reconhecimento óptico de caracteres (OCR) em documentos manuscritos. O projeto pioneiro no uso dessa plataforma para documentos inquisitoriais em português permitiu a construção de modelos treinados especificamente com os manuscritos do Santo Ofício, preservados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.


Esse avanço tecnológico facilitou a transcrição automática de textos complexos, reduzindo o tempo de análise e ampliando o acesso a fontes antes restritas a especialistas. A publicação "Transkribus: uma ferramenta de paleografia digital mediando pesquisas em fontes inquisitoriais" (2024) detalha essa experiência, mostrando como a plataforma se tornou um elo entre a tecnologia e a pesquisa histórica, mediando o diálogo entre o passado e o presente.


Estudos de caso e reflexões teóricas


A documentação inquisitorial não serviu apenas como matéria-prima para o desenvolvimento tecnológico. Ela também inspirou reflexões teóricas e estudos de caso que aprofundaram a compreensão do contexto histórico e social desses documentos. Um exemplo emblemático é o estudo do processo inquisitorial do negro Pedro João, apresentado em "Análise do Processo Inquisitorial do negro Pedro João: um resultado do projeto Várias Mãos e Muitas Penas" (2021).


Esse trabalho demonstra como a Paleografia Digital pode contribuir para a história social, revelando narrativas antes invisíveis e ampliando o entendimento sobre a diversidade e as tensões presentes na sociedade colonial portuguesa. A análise detalhada do processo de Pedro João mostra a riqueza dos documentos inquisitoriais e a importância de métodos digitais para sua interpretação.


A evolução da Paleografia no mundo digital


A trajetória da Paleografia Digital no projeto é também uma história de transformação metodológica. A publicação "Da 1.0 até a 3.0: a jornada da Paleografia no mundo digital" (2021) traça essa evolução, desde as primeiras tentativas de digitalização até o uso avançado de inteligência artificial e aprendizado de máquina.


Essa narrativa destaca como a integração entre tecnologia e humanidades digitais permitiu superar desafios técnicos e conceituais, consolidando a Paleografia Digital como um campo interdisciplinar. O projeto demonstra que a inovação não está apenas na tecnologia, mas na forma como ela é aplicada para ampliar o conhecimento histórico e preservar o patrimônio documental.



Colaboração científica e inovação aplicada


O desenvolvimento dos primeiros modelos de reconhecimento automático para manuscritos inquisitoriais em português não teria sido possível sem a colaboração entre especialistas em paleografia, historiadores, linguistas e cientistas da computação. Essa interdisciplinaridade fortaleceu o projeto, permitindo que cada etapa da pesquisa fosse enriquecida por múltiplas perspectivas.


A inovação tecnológica aplicada ao patrimônio documental não se limita ao uso da plataforma Transkribus. Ela envolve a criação de protocolos para o treinamento dos modelos, a curadoria dos documentos digitais e a reflexão crítica sobre os resultados obtidos. Essa abordagem integrada garante que a tecnologia sirva aos objetivos científicos e culturais, respeitando a complexidade dos documentos históricos.


Impactos e perspectivas futuras


O projeto estabeleceu um marco importante para a Paleografia Digital em língua portuguesa, abrindo caminhos para novas pesquisas e aplicações. A documentação inquisitorial, antes um campo restrito a poucos especialistas, tornou-se acessível a um público mais amplo, graças à digitalização e ao reconhecimento automático.


Além disso, o trabalho realizado inspira outras iniciativas que buscam aplicar tecnologias digitais a diferentes tipos de documentos históricos, ampliando o alcance das humanidades digitais no Brasil e em Portugal. A consolidação desses métodos contribui para a preservação do patrimônio documental e para a democratização do acesso ao conhecimento histórico.


A continuidade dessas pesquisas promete aprofundar ainda mais a integração entre tecnologia e história, estimulando a criação de novos modelos, a análise de outras coleções e o desenvolvimento de ferramentas que facilitem o trabalho dos pesquisadores.



 
 
 

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