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A origem deste trabalho remonta ao ano de 2019, quando pesquisadoras e pesquisadores, de forma voluntária, iniciaram o desenvolvimento de um modelo de reconhecimento de escrita manuscrita em língua portuguesa para a plataforma Transkribus, software criado pela Universidade de Innsbruck, na Áustria, e atualmente reconhecido como uma das principais ferramentas internacionais para transcrição automatizada de documentos históricos. Naquele momento, embora a plataforma apresentasse modelos para diferentes idiomas, ainda não existia um modelo treinado especificamente para lidar com manuscritos históricos em língua portuguesa.
Para suprir essa lacuna, foi concebido o projeto Várias mãos e muitas penas, cuja proposta consistiu em ensinar a máquina a reconhecer as características paleográficas da documentação produzida em português durante a Época Moderna. Como corpus inicial, foram selecionados cinquenta processos inquisitoriais e documentos pertencentes aos Cadernos do Promotor relativos ao Brasil Colonial, todos preservados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. A escolha desse conjunto documental deveu-se tanto à sua relevância histórica quanto à diversidade de escritas presentes nos processos, elemento fundamental para ampliar a capacidade de aprendizagem da ferramenta.
O trabalho de treinamento exigiu a realização de milhares de transcrições paleográficas executadas manualmente. Cada fólio foi cuidadosamente analisado, teve suas linhas identificadas, suas regiões textuais delimitadas e seu conteúdo transcrito segundo critérios conservadores, preservando grafias originais, abreviaturas, caracteres históricos e particularidades da escrita manuscrita. Esse conjunto de transcrições constitui aquilo que a inteligência artificial denomina ground truth — a verdade fundamental a partir da qual a máquina aprende a reconhecer padrões gráficos e linguísticos.
O resultado desse esforço foi a criação do Portuguese Inquisition Handwriting, o primeiro modelo de reconhecimento de escrita manuscrita em língua portuguesa desenvolvido na plataforma Transkribus. Para sua construção foram utilizadas aproximadamente 11.876 palavras transcritas, número que permitiu o treinamento inicial do sistema e a obtenção de resultados considerados promissores para uma primeira experiência em documentação portuguesa manuscrita.
Os resultados alcançados demonstraram, contudo, que o potencial da ferramenta poderia ser significativamente ampliado. Por essa razão, a equipe deu início à construção de um segundo modelo, denominado Modelo Padre Antônio Vieira, concebido para superar as limitações do treinamento inicial e alcançar níveis de assertividade superiores a 95%. Para isso, estabeleceu-se a meta de reunir aproximadamente 250 mil palavras transcritas, transformando-o em um dos maiores conjuntos de treinamento paleográfico já produzidos para documentos históricos em língua portuguesa.
Ao longo dos anos, os resultados desse trabalho foram apresentados em eventos científicos nacionais e internacionais dedicados à Paleografia, Diplomática e Humanidades Digitais, contribuindo para inserir a documentação inquisitorial em língua portuguesa nos debates contemporâneos sobre inteligência artificial, preservação digital e acesso ao patrimônio histórico. As pesquisas decorrentes do projeto demonstraram que ferramentas de reconhecimento automático de escrita não substituem o trabalho do paleógrafo; ao contrário, dependem diretamente de sua atuação para que a máquina aprenda a interpretar corretamente as múltiplas formas de escrita presentes nos manuscritos históricos.
As edições disponibilizadas neste portal são fruto direto desse percurso científico. Cada documento aqui publicado resulta da combinação entre o processamento computacional realizado pela Transkribus e a revisão especializada efetuada por pesquisadores capacitados em leitura paleográfica e edição de textos históricos. Dessa forma, o Arquivo Digital da Inquisição Atlântica busca garantir não apenas a ampliação do acesso às fontes inquisitoriais, mas também a qualidade científica das transcrições disponibilizadas.
Ao reunir e publicar essas edições digitais, o projeto contribui para a democratização do acesso a documentos fundamentais para a compreensão da história do Brasil, de Portugal e do mundo atlântico. Os processos inquisitoriais preservam testemunhos sobre práticas religiosas, relações sociais, conflitos culturais, trajetórias individuais, circulação de saberes e usos da língua portuguesa ao longo dos séculos. Torná-los acessíveis em ambiente digital significa ampliar as possibilidades de pesquisa, ensino e preservação da memória histórica, aproximando o patrimônio documental de pesquisadores, estudantes e do público em geral.
O Arquivo Digital da Inquisição Atlântica é, portanto, o resultado de uma trajetória que une tradição filológica, rigor paleográfico e inovação tecnológica, demonstrando como as Humanidades Digitais podem contribuir para preservar, interpretar e difundir documentos históricos de excepcional relevância para a compreensão do passado.
SOBRE O PROJETO
O Arquivo Digital da Inquisição Atlântica é uma iniciativa dedicada à publicação de edições digitais de documentos inquisitoriais produzidos pelo Tribunal do Santo Ofício e atualmente custodiados pelo Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal. Mais do que um repositório de transcrições, este portal representa o resultado de anos de pesquisa desenvolvida no campo da Filologia, da Paleografia, da Diplomática e das Humanidades Digitais, articulando métodos tradicionais de estudo dos manuscritos históricos com tecnologias contemporâneas de reconhecimento automático de escrita.
Metodologia de Trabalho
( 01 )
Seleção Documental
( 02 )
Transcrição
( 03 )
Correção e Padronização
( 04 )
Treinamento do modelo
Análise rigorosa do conjunto documental para identificar boas digitalizações, padrões de escrita e contextos históricos.
Inclusão dos documentos selecionados na plataforma Transkribus para devida leitura e transcrição manual
Revisão das transcrições feitas para garantir a qualidade da leitura e padronização com os critérios paleográficos adotados
Treinamento do modelo a partir das transcrições revisadas, permitindo o aprendizado dos padrões gráficos, abreviaturas e particularidades paleográficas presentes na documentação.